quarta-feira, 28 de março de 2018

"Mornings are for coffee and contemplation", said once sheriff Hoper. E eu sempre concordei com o parafraseado, apesar de somente tê-lo descoberto recentemente.
Estava à completa mercê do clichê, com uma xícara fumegante de café na mão direita, cigarro na esquerda, contemplando o sentido do todo nesta Terra, quando então num lento piscar de minha terceira pálpebra, o Universo, muito didaticamente, dá-me respostas como quem dá tapas na cara. Não, too clasyfor my little existance. Como quem dá jabs no estômago. Mas as respostas mostram-se tão ricamente ilustradas, com requintes de uma luz delicada, nacarada, de beleza precisa, numa plasticidade de movimentos e crudeza de significado que o primeiro segundo de entendimento foi uma epifania fria, chocada. Epifania cartesiana.
Contra o verde que se estica em matizes não reproduzíves, um par de grandes asas azuis-céu, asas quase etéreas, sobrevoava poeticamente o meu manjericão em plena florescência. Enquanto eu cerebralmente me dividia entre por nada nesse mundo perder um segundo que fosse daquela beleza de pintura e as frenéticas sinapses apavoradas pela motefobia, um Tiê-sangue entra na indizível tela de acontecimentos. Insensível ao belo - ele mesmo signo vermelho vivo brilhante de beleza - predador assertivo, parte certeiro para a enorme borboleta azul-céu. Tudo tão, tão bonito! O balé da borboleta contra a brisa da Mantiqueira, os verdes todos ali, se esticando e misturando até um azul-verde-acinzentado das Agulhas Negras lá no alto, uma luz como que difusa por entre as brumas que já se dissipavam, uma flecha vermelho-sangue, viva e faminta, uma boca vermelha de morte. Tudo tão tão bonito!
E pela sagrada Lei da Analogia, eu entendi.
Alguém disse que somos o inferno de um outro mundo. Outro alguém disse que encontramo-nos em um orbe de expiação. Vida e morte do denso. Do ciclo. Do micro ao macro, assim na Terra como nos Céus, em todas as possibilidades da ordem a partir do caos. Mas é tudo de uma beleza!
* * *
Para o querido leitor cético, ateu, ocupado demais com questões mais sérias, arrependido de ter lido essa crônica até o final... você tem o seu ponto. Mas eu sempre cri que a verdade está mais nítida e acessível pela manhã, talvez como o prana na atmosfera. E isso, a mim, basta.
* * *
Ainda analiso que como um meta-episódio de uma história em quadrinhos qualquer, nós, homo sapien sapiens (aquele que 'sabe que sabe') - eu, observadora da cena incluída na própria - estamos sempre muito imersos em todas as nossas pequenezas dentro do universo insondável de nós - minha motefobia em pé-de-igualdade com minha eterna devoção ao belo - enquanto que o Todo passa ao largo, à volta, em frente...tão tão maior que nós em nossa imensa e mesquinha beleza de universo diminuto. Na distração, o que importa passa, as armadilhas famintas do ego a tudo comem e regurgitam.
* * *
Este foi um texto de fé.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cap I:

He rushed in like a hurricane. He had this thing in his eyes. This thing always caught her; it was like magnetic-organic to her, some reaction in a subatomic level deep in her cells, some morphogenetic condition. It was instinct. Despite the violence in his walk, the thing in his eyes was brigther today. His right hand was severly hurted, bleeding. He had deffinatley punched someone. And savored the process with pure joy, she concluded.

_Let me help you with this.
_It is nothing.
_It’s nothig but my job to take care of it.
_I am fine. I told you, it is nothing.
_I’m not asking anymore. You are the bad cop, I got it. I’m not beeing nice with you, don’t need to get all allergic. Your hand is covered in blood and dirt, it will be infected in 3 hours and as far as I know, you are right handed. I am cleaning this.

She finnished the sentence grabbing his hand, the left one, and put the right one under water. It was ugly, really. ‘The other guy is probably a hamburger now’ she thought. If she knew him well enough, the first punch was in the middle of the chin, to disorientate the opponent. To make a statement. He wasn’t subtle when it comes to be about his job. He is sheriff, so people expects of him some…things, and posture. In addition, to keep his position, he should play his part. The truth is it was not some vulgar violent male-tale. He was bigger than that. He was classic. He act classically, and it worked well. So far so good.

Now she noticed that his left hand was hurted too. The knot fingers were pealed-off. So after the first punch – that was for sure a phenomenal thing to watch, brutal enough to make the poor thing/other guy past out for a few seconds, Neil lifted the guy up, probably by the jeans jacket he must be wearing. That should be burning like hell. Then came the forehead right in the nose, as the bleeding point in the middle of his eyebrows indicated. Nevertheless, his right hand, was really, really fucked up. Minced meat with bones, miraculously whole bones. Maybe four, five heavy jabs in the face of his opponent. He used to have this ridiculous micro-skull tattoo on his hand that certainly wouldn’t survive to the new scar. Nothing else was ridiculous about that man. It’s funny, he hadn’t the obvious beauty, hadn’t symmetry, wasn’t a beautiful warmth smile, perfect teeth or blue eyes. However, when the pieces were together, his constantly frown, the mid-long dark brown hair that blends with the honey brown beard in a sort of mane, the deep-shadowed eyes, lips that were indescribable and serious. A physical constitution of a soldier, a strong skilled soldier. He was actually a veteran, but they never trade a word about that. They barely spoke… they used words to each other carefully, because when the sound of his voice were heard, or hers, it was pure synesthesia. Listening to the sound of that voice initiated a chain of events in both bodies, hard to bare, almost impossible to stop.

Their relationship were based on this tacit agreement, it seemed. They looked each other several times a day, more with the intention of knowing that his/hers satellite was there. No exchanging glances. In their voiceless, wordless agreement, no cliché romance allowed. Neil was severe, in all aspects of his personality, at least that’s what she perceived of him. And she was an excellent observer, an essential part of her talent for read people, an essential part of their relationship. She used to be gorgeous, years back, when in the old Earth. Now she was too tired, with the soul too old, with too many problems to solve. Everything was there, resisting to the tough years, the beautiful black silk hair, the honey green eyes with small brown dots, those succulent tights, like ripe fruits, the strawberry lips, the freckles against the porcelain skin. But the years were cruel to everyone, hardened her character, and she eventually lost her exuberance. Well, not for him. He could admire her for hours, all of her movements were gracious. He loved to observe her muscles responding to her elegant and fierce walk, as if there were an inaudible song guiding her legs and hips. She was his everyday damnation, fuck. So impossible to deal with. Back in the days, when he hadn’t that much of weight on him, things would be different between them - he said that mentally every fucking time she appeared with that baby-blue dress. Or every time she was simply brilliant, which happened a lot. He began to feel in his bones he needed to fix things with Cali. Urgently. Fuck the Ragnarök. She finnished the first aids, her delicate hands made him feel nothing. The touching was unbearable. Was all about the eyes, between them. But things would change now.


(in progress)

sábado, 19 de agosto de 2017

Pensava na estupidez de escolher uma lingerie de renda maravilhosamente desconfortável, apenas para se despir e passar as próximas horas estática, reclamando mentalmente que seu retrato acabaria com as marcas da renda estampadas em seus quadris.

Pensava na estupidez de ter meticulosamente deliberado acerca da lingerie, da combinação de texturas entre a fina renda de seu soutien e a rudeza do linho cru de seu vestido.

Pensava na estupidez de se envolver em rituais para se apresentar a um homem que mal conhecia, cujo interesse se limitava na observação dos matizes das veias sob a sua pele, do jogo da luz e da sombra nos côncavos e convexos do seu corpo, na plasticidade da sua casca.


Enquanto catalogava cada decisão estúpida em seus arquivos cerebrais, chegou ao hall do prédio estéril que guardava o estúdio do pintor. No momento em que leu o anúncio, solicitando uma voluntária para posar por 4 horas, pareceu uma ótima ideia: eu vou ficar nua em um estúdio de pintura de um potencialmente interessante espécime masculino, o que pode dar errado, certo? Certo. Mas agora estava ali, com a calcinha meticulosamente escolhida. Renda. E o soutien também. Desperdiçar 3 horas de banho, óleos, perfume, carmim e lábios delineados? Não era uma opção minimamente viável. Perguntava-se por onde andava aquele tesão que sentia por experimentações vazias de significados filosóficos, aquele frio na barriga que intumescia os mamilos e arrepiava os pelos das coxas e enrubescia as bochechas. Perdida (invariavelmente) em seus devaneios, encontrou o que procurava quando a porta do estúdio se abriu. O tal pintor em nada se parecia com as fotos que havia visto. Na verdade,
agora as fotos que vira dele pareciam caricaturas de mal gosto. Alto, o suficiente para ter de elevar os olhos, mas sem que seu pescoço doesse. Magro, mas notava-se músculos vigorosos cobertos pela malha velha de uma camiseta do John Paul Jones. Olhos atentos, sagazes, despudoradamente sagazes, boca macia (ela se deteve por um segundo a mais em seus lábios -macios, ao que responderam com um sorriso-de-canto-de-boca pornográfico) contornada pela barba cheia e bem aparada. Somente agora reparava que por sobre os olhos sagazes vestia óculos, e neles via o reflexo de uma mulher altamente desejável, curvas generosas sem nenhum compromisso com a perfeição, um vestido de linho cru que dava aos observadores um vislumbre de renda a contornar um seio, umas ancas largas, uma cintura que convidava uma mão a um descanso. E a um passeio.

O pintor abriu um sorriso sincero, convidou-a a entrar, ofereceu um café, um baseado, um whisky. Ela aceitou os dois primeiros, respirou fundo de olhos fechados por milissegundos e pensou "sim". Passado o relaxamento subsequente ao THC agindo em seu sistema nervoso, sorriu. O pintor explicava calmamente como seriam as próximas horas, que ela poderia pausar a sessão sempre que necessário, que não havia pressa e seu tempo seria respeitado. Nada, nada de muito relevante além daquela voz de trovão rouco, baixa, grave, melodiosa. Aquela voz sim, merecia toda a atenção que seu cérebro pudesse dar. Ele ainda falava enquanto organizava seu cavalete e tintas. Ela notou suas mãos. Dedos compridos, duas tatuagens ininteligíveis, mãos enormes. Assinalou mentalmente que elas caberiam em sua cintura, e que seus seios caberiam nelas.
Ele disse qualquer coisa sobre as formas femininas e sua poesia, e lançou um olhar as suas pernas (agora cruzadas). Não era um olhar de fome, não era o olhar sacana que ele dirigira aos seus olhos. Não, era veneração. Era adoração pela forma, pela reação da pele à luz da manhã que banhava a sala do estúdio, refratada nos salpicos loiros dos seus pelinhos. Ela via a poesia da qual o pintor lhe falara. Via ali, naqueles olhos despudorados que agora a devoravam como uma boca faminta, poesia de carne e pele. Sentiu-se tomada de beleza e comoção. Seus cílios agora batiam como asas de uma borboleta preguiçosa, seu sangue pulsava quente, caudaloso, seu vestido se tornara um véu, o véu que embala em frisson a antecipação da visão. Ela lembrou-se de uma fala, em uma revista em quadrinhos: - he was savoring the meal to come. Percebeu que ele respirou para se recompor daquela epifania compartilhada, reuniu toda a gentileza cabida naquela voz de homem e perguntou aquilo que o momento passado já havia respondido: - você está pronta?

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Classificando O Que Me Resta

“E’ bom estar de volta, ainda que aos pedacos. Nos resta agora descobrir quais sao os pedacos que me restam.”

Encerrei minha vida de celulose aqui nesta frase, frente a esse abismo que e’ olhar para dentro. E como foi assustador olhar para dentro de mim. Descobri que me faltam muito mais pedacos do que aqueles que me restaram, mas em uma rapida analise, conclui que talvez eles nunca estiveram aqui.
Me falta, por exemplo, uma generosa parcela de compaixao. E acho que talvez isso que tenho aqui por tras do meu mediastino nao e’ um coracao. Acho que falta bom senso ao meu estomago que implora por cerveja ja’ as 5:00 da manha e a minha boceta, que faz todo o possivel para que eu ignore todo e qualquer protocolo pre-estabelecido. Me sobra amor por gatos, principalmente pelos meus seis. Eles sao mais sexies em toda sua gloria irracional que eu jamais serei caso tenha uma longa vida, me dao quase tesao. E uma puta inveja daquela coluna. Me sobra medo. Medo de tudo, de cair e perder mais ossos, de me embreagar longe de casa, de morrer de cancer no pulmao, de desenvolver uma queloide em minha proxima tatuagem, de comer carne vermelha demais e somar mais karmas a minha extensa divida, de borboletas de todas as cores e formatos (principalmente daquelas que estalam na primavera).  Medo de escrever.
Agora tenho um noivo, sabe. Um santo homem, que acha bonitinha ate a mais esduxula das minhas perversoes, e seu unico porem nesse aglomerado escroto de caretas e repudio que sou eu, e’ que, segundo ele, minhas tatuagens deveriam ser maiores. Haha. Ele nao ouve nem Beethoven nem Liszt, mas curteLed Zeppelin, o que para mim e minha nova vida, basta.  E nessa minha nova vida, descobri que sou uma pessima dona de casa, apenas cozinho carne (que foi a unica coisa que comi nos ultimos 24 anos, junto com leite e cerveja), e amo plantas. Estou inclusive me aventurando em um herbario. Tudo bem, quase todas as ervas morreram com excessao da menta e da salvia vermelha, e minhas roseiras estao resistindo bravamente. Mas o chifre-de-veado e o jasmim-manga triunfam magnanimos em minha varanda (alias, em minhas andancas descobri que o jasmim-manga e’ comumente confundido com a dama-da-noite, e foi trazido ao Brasil por Burle Marx).
Tambem tenho medo de me tornar uma monotona burocrata do ramo petroleiro, enlouquecer e cometer um assassinato em massa, em pleno Largo da Carioca ao meio-dia.
Darei noticias sobre os proximos pedacos descobertos e investigados.


*Desculpo-me pela falta de acentuacao, porem o computador e' gringo e ainda nao descobri com endireitar essa belezinha.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Retrospectiva

*Escrito em 12/2011. 

Olhando por cima do meu ombro, vejo o rabo de 2011 se arrastando. E que ano.

Tive menos cuidados com as palavras (ou nenhum), me expus, não esperei, fui mal-educada, pacífica e pacifista, ignorei solenemente os protocolos morais e sociais que me convieram ignorar, fui leal à mim. Bebi muito, dormi pouco, fumei maconha, tomei anfetamina, sibutramina, neosaldina e quase stricnina. Fiz muito sexo, com amor e por diversão, sempre da melhor qualidade. E quando não fiz nem por um motivo nem pelo outro, o fiz simplesmente para matar a fome.  Tive uma affair com um rockstar. Amei desesperadamente por 2 meses, namorei à distância, me re-apaixonei por um amor da adolescência, cultivei uma arqui-inimiga, ganhei mais um pai e finalmente, um amor tranquilo. Fizemos duas tatuagens desde então, fomos ao show de nossas vidas, tomamos o porre de nossas vidas, noivamos. Cospi em muita gente, dei à mão à tantas outras.  Fui à muitos saraus, luais e afins. Fui a duas festas de penetrea. Composicionei-me. Fiz novos e grandes amigos, ganhei mais família, aprendi que eu posso ser dura e crítica. Não fiz nenhuma dieta, e coincidência ou não, nunca me senti tão bonita. Escrevi, fumei, tomei coca-cola, toddynho, chorei, trepei, brinquei, trabalhei, e fiz tudo isso muito. Aliás, continuo fumando muito (fecho o ano contando 2 maços/dia). Descobri que sou admirada por pessoas que admiro, iniciei minha carreira de super-homem, fui promovida em minha carreira de Clark Kent. Tive um namorado virtual. Descobri 3 fãs. Gravei um vídeo. Escrevi um roteiro. Fiz um curta. Posei para fotos. Ganhei o homem mais bonito da festa. Aprendi a não me referir ao meu ex-noivo como meu ex-noivo. Ganhei uma Libélula Rubra só minha. Arrumei meu quarto. Exorcizei fantasmas antigos, arrumei alguns novos. Tentei e desisti da terapia. Mais tatuagens. Deixei o cabelo crescer. Cortei o cabelo curtinho. Cortei o cabelo moicano. Deixei crescer de novo. Perdi uma amiga. Enterrei duas (Jess e Helô, a saudade vai se abrandar, eu prometo...). Fiquei hipertensa, tive crise de coluna, renal, estomacal e respiratória. Dei pra um médico. No hospital. Comprei uma  gaita, um scarpin azul-caneta, uma bolsa lady-like fúcsia, um par de oxfords off-white, a coleção de Black Kiss – Howard Chaykin, brincos de caveira e material de desenho novo. Li 19 livros, partindo para o 20º.  Voltei às minhas aquarelas. Descobri algumas perversões. Fodi o juízo alheio (mas por pura reciprocidade). Ganhei um par de irmãos que namoram (sim, é mesmo complicado). Namorei à distância. Viajei. Viajei mais. Cansei de viajar. Dormi em hotel, motel, pousada, rodoviária, restaurante, avião, carro, ônibus, tapete e aeroporto. Perdi minha carteira de identidade. Achei dinheiro, um vestido, um par de havaianas no meu número. Perdi um par de sapatos da minha mãe e uma jaqueta branca. Terminei a coleção de meu seriado favorito, de meus filmes + livros favoritos e começei minha Vídeoteca 80’s. Encerrei minha última contagem da coleção de LP’s em 3’787, mais duas coleções extras: uma dos Beatles, com a discografia completa incluindo singles raros, todos americanos e uma do Led Zeppelin (really, Led.) no mesmo esquema. Me descobri parte de um clã. Comprei um toca-discos portátil. Troquei as cordas do Jim e estou pensando em tirar todos aqueles adesivos e deixá-lo mais apresentável............................................................................................... .................................................Olhando por cima do meu ombro, vejo o rabo de 2011 se arrastando. E que ano.

Fadada ao Fracasso

Talvez devesse tentar meditar. Tentar ingerir menos protieína animal, me importar com as árvores e as alfaces. Tentar trocar meus heróis fumantes por santos ou ativistas. Tentar beber água mais de duas vezes por semana, tentar passar mais de dois dias sem cerveja. Tentar sorrir mesmo sem sexo. Tentar ser simpática mesmo sem... Nevermind, não conseguirei ser simpática.  Tentar não extratificar em dados apurados o amor. Tentar não questionar o amor. Tentar não ignorar o amor. Tentar o socialismo, apesar de acreditar ter verdadeira vocação para anarquia. Tentar cozinhar a carne para comê-la, e assim me desvencilhar da semelhança com Hannibal Lecter. Tentar piadas politicamente corretas. Tentar ações politcamente corretas. Tentar frases politicamente corretas. Tentar ser uma boa cidadã. Tentar a não-violência. Tentar não tentar convencer as pessoas de que seus sonhos são estúpidos e suas vidas medíocres demais para que estas percam seus tempos sonhando. Tentar usar protetor solar, shampoo, Artroveram, Dipirona, Diclofenaco, Ópio, Vallium e um baseado socialmente como as pessoas normais fazem para curar suas dores. Tentar dizer mais vezes ao tatuado o quanto o amo. Tentar ser mais doce. Tentar não questionar, categorizar ou quantificar o amor. Tentar não me comprazer na desgraça de meus inimigos. Tentar oreções sinceras, com os Deuses e homens. Tentar não fumar 40 cigarros por dia e tentar não rir disso. Tentar não fazer piadas com um possível câncer no pulmão. Tentar não fazer piadas com a Wanessa e com seu bebê e tentar não rir de quem as faz. Tentar não repetir a piada de que meus pais deveriam ter-me obrigado a malhar a bunda no lugar de estudar. Tentar malhar a bunda às vezes. E o resto se possível.  Tentar não associar fome à gordura trans. Tentar manter-me quieta diante da estupidez alheia. Tentar não planejar meus passos. Tentar depilação com cera quente e calcinhas de algodão. Tentar enjaular a Raposa e me portar como uma meninas apenas para variar. Tentar não mandar as pessoas tomarem no cú a cada burrice testemunhada. Tentar não falar palavrões.

...

Tentar cada uma dessas tentativas para, pelo menos, convencer-me de que esta sou de fato eu e não adianta tentar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Back In The Saddle Again


Cá estou de volta. Soturna, maliciosa, cínica e voraz.  Esfinge tresloucada, aquela que só devora e não pode ser decifrada. Andróide poético que não sente nem ama, apenas reflete, analisa, interage, quantifica. Quero olhar para tudo como que tivesse nascido agora, agorinha. Quero é desconhecer.

Eu, que deveria saber que não há perdão para almas como a minha, voltei ao inferno. Do lado de cá mais uma vez entendo porque sempre desprezei a alma humana (principalmente a alheia) em função da carne. Por que não há nada além daqui. Porque de nada, além de te poupar o lado mais divertido da vida, te serve ter uma alma.  Por que trocas práticas (os chatos e pudicos dirão superficiais) são menos monótonas e dramáticas, e no fim das contas te arrependerás por qualquer perda de tempo. Feito o amor, essa invenção de péssimo gosto. A piada mais longa e mal-contada da história do universo.
Eu prefiro a carne. Esta sim é quente, doce, palatável e de fácil leitura. Que a alma fique para os torturados e mal-comidos metafísicos, poetas e afins. E para a Clarice Lispector, que se encaixa em cada um desses rótulos. Não há droga que amenize a vida, não há recompensa mais grata que a morte. E eu voltei, com ambas negadas.

Eu voltei, e voltei tão faminta quanto hedionda. Quem sabe não crio uma nova espécie a partir das costelas que me faltam? Sim, de volta. Mais puta que nunca.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma Dose, Apenas Uma Dose.


Saíra apressada de casa. A noite havia sido péssima, pesadelos com borboletas por toda a madrugada. Borboletas e folhas em branco. O escritório e suas paredes amarelas e estéreis andava apavorando-a ultimamente.

Tic tac tic tac tic tac "Acorda amor/ que eu tive um pesadelo agora/ sonhei que eram os homens lá fora/ fazendo confusão, que aflição! " tic tac tic tac. Seu despertador, Chico, infalível como sempre. Eram 5:11. Olhou ao seu redor e o que viu a atingiu sem piedade. Eles haviam conseguido. Imediatamente percebeu que os pesadelos haviam sido todos induzidos, todos, todos, todos, óbvio.  Sempre desconfiara daquela luz vermelha piscante e incessante do seu aparelho celular que a empresa havia lhe dado . Tava na cara que estavam rastreando-a desde o principio. E agora, com as paredes da sala de sua própria casa pintadas naquele mesmo amarelo estéril... Eles haviam chegado, nada mais poderia ser feito.

Não havia ninguém em casa, seu irmão, seus pais, nem mesmo seus cachorros. Haviam sequestrado todos.

Não pensou duas vezes, pegou sua bolsa, vestiu-se como se fosse trabalhar (afinal poderiam haver espiões infiltrados entre seus vizinhos. Agentes duplos talvez. Ra! Aquela gorda da casa ao lado, sempre solícita, sempre com um bom conselho nos lábios seguido por um sorriso bonachão. Ela era a agente dupla.), e se encaminhou até o orelhão da próxima rua. Ao chegar percebeu a burrice que estava prestes a cometer. Se ligasse daquele telefone, estaria muito claro que ela seria a interlocultora, assim que rastreassem o numero. Entrou em um ônibus rumo ao centro da cidade e dele livrou-se do telefone celular-chip-rastreador. Aquilo não os impediria, mas daria algum trabalho.

Do terminal rodoviário, centro da cidade, ligou para aquele que ela tinha absoluta certeza ser o mandante de todo o esquema: o colombiano. Ao atender no primeiro toque, ela disse "poupe seu espanhol, eu já sei de tudo e estou a caminho de sua casa agora." Ele blefou. Ela insistiu e jogou mais pesado dando o endereço de onde morava, o nome completo da esposa e dos filhos, até o da domestica. Ele cedeu. "O que queres esta no escritório”. Ela ameaçou. "Não estou agindo sozinha, então é bom mesmo que esteja, e que você esteja lá."

Chegando lá, carros de policia cercavam o prédio, a rua parecia um formigueiro. Uma espessa calda vermelho vivo escorria em direção ao bueiro. Então viu uma massa de carne enorme e amorfa de onde se originava o riacho vermelho vivo. Era o colombiano, havia se jogado do 21º  andar, da janela de sua sala no escritório. Sua chefe, uma senhora doce de seus 5O anos veio correndo em sua direção. "Eu não sei o houve! Não sei como aconteceu! Eu entrei em sua sala, ele estava ao telefone, então eu voltei pra minha mesa! De repente, passados alguns minutos com o telefone dele tocando sem parar, fui a sua sala mais uma vez e ele não estava la e a janela estava fechada e havia o bilhete no teclado do computador..." E desabou a chorar em seus braços. Nesse mesmo instante, toca o celular pessoal. Seu irmão, ligando do aparelho de seu pai, dizendo que estavam saindo do hospital naquele instante e que não haveria a necessidade de cirurgia, apenas o tratamento com remédios que as crises cardíacas seriam controladas. Perguntou sobre as paredes e os cachorros (aquilo não havia sido explicado), e seu irmão respondeu-lhe que ele e sua mãe haviam pintado durante o período que ela estava viajando, mas que chegou tão cansada na noite anterior que nem mesmo havia reparado que a cor da sala mudara, e que os cachorros estavam obviamente no canil.

 Ao desligar o telefone ouviu um dos policias dizer que estavam evacuando o prédio para a policia federal trabalhar sem interrupções, pois como se tratava de um narcotraficante internacional, certamente havia dedos dos mexicanos envolvidos e não raro todo o edifício seria alvo de prováveis atentados nos dias a vir. Despediu-se de sua chefe, ainda em prantos e voltou para casa. Por garantia jogou fora também o seu aparelho celular (na baía de Guanabara, pois em lixeiras ele poderia ser facilmente encontrado) e comprou um novo. Ao chegar em casa, achou mais seguro também entrar pelo muro dos fundos. Aquela vizinha gorda ainda estava sob suspeita. Ela seria a próxima.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A Flâneur, Julianna Merat, José Bechara e Gaston Bachelard Num Quarto de Hospital.






Dentre as muitas coisas da vida que não entendo e creio não ser por falta de vida vivida, uma delas é a certeza. Não entendo de que serve tê-la ou contestá-la, não entendo a valia desta propriedade imaterial.



A última frase que a charmosa mulher de olhos piedosos disse foi algo sobre as sequelas. Ao que parecia, eu não recuperaria parte de meu paladar responsável por identificar o doce. Pensei comigo que era uma troca muito justa, ja que meu corpo continuaria a decodificar serotonina.







Quando ela saiu, todos os presentes (meus pais e irmãos) tentaram me alegrar dizendo que ainda assim era apenas uma hipótese. Meu cérebro mal os acompanhava. Imaginei que eu deveria ser uma pessoa extremamente desagradável, além de alcoólatra e fumante compulsiva, pois enquanto todos a minha volta transbordavam amor e palavras de incentivo eu apenas sentia uma profunda irritação (que apenas meu irmão percebeu e o fez calar-se imediatamente - isso não havia mudado, ele ainda me conhecia fundo), e uma vontade quase incontrolável de cigarros e cerveja. O gosto de ambos me fez cócegas na garganta, e as cócegas me fizeram pensar então que talvez fosse possível acordar de um coma e ainda ser a mesma pessoa. Ou algo próximo disso.






Mas haviam questões mais importantes em jogo ali, como o fato de eu não conseguir diferenciar idiomas, o que fazia com que a comunicação fosse quase impossível, já que eu misturava várias línguas na construção de uma frase. Ou a comicidade imersa em não saber distiguir o que era real e o que era minha mente incontrolável. Eram frequentes frases do tipo "isso nunca aconteceu" ou "fulano eh um personagem", ou ainda "você nunca esteve em tal lugar". Cheguei ao absurdo de ouvir: "você não pode ter uma magnum embaixo do banco do maverick simplesmente porque você não tem um maverick. Nem uma magnum, que eu saiba". Mas eu me lembrava dela estar la. A voz grave e preocupada de meu pai me trouxe de volta de minhas divagações. Ele dizia que iriam dar uma volta, pois estava na cara que eu queria ficar um pouco sozinha. De brincadeira, pedi que me trouxesse um maço de lucky strikes e cerveja, ao que ele perguntou: qual? E eu como que por instinto respondi: dos vermelhos..., e uma heineken. Ele sorriu um sorriso iluminado, como um professor ao ouvir uma resposta brilhante de seu pupilo. Vi que havia algo de mim aqui ainda. Segundos depois ele rosnou para mim algo sobre "vergonha na cara e respeito a vida". Recebi um beijo de cada um, e enfim me deixaram.






Tive medo de minha própria companhia. Agora eu estava sozinha com minhas memórias, ou o que me restara de seus retalhos.






(em construção)


Também não entendo memórias, saudades e amor. Mas isso já são outros 500 ininteligíveis, ainda mais pra quem apenas acordou de um coma. 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Fotopoética ou Delírios Poéticos (Work in Progress)















Queridos, segue nesse post um apanhado de meus últimos suspiros (o que tem acontecido com uma frequencia aterradora até para a Sandy. Ok, péssimo referencial.). Espero que gostem, que toquem-lhe... Isso tudo é muito novo pra mim, então é difícil, considerávelmente difícil.






Vinho Tinto, Folha Branca.
quarta, 10 de agosto de 2011 às 14:08



Dia desses hei de encher teu copo






Tinto.






Dia qualquer hei de encher teu corpo






Vinho.






Mas por enquanto o encanto (só) me basta. Poesia.


É que o enquanto me casta as vias. Vida.


O instante me traga o amor.


Brindemo-nos no espaço da distância entre essa vida separada de amores: Meus e Teus.

 
É que nossos sorrisos ainda se encontram.


E naquele minuto em que teu olhar encontrou minha mão e minha mão buscou o lápis e o lápis o papel e nossa vida se fez em branco, nós herdamos e fundimos esses não-nossos amores e nos amamos os dois, ali, naquela folha, naquele minuto, e meus olhos encontraram os teus.


Então percebi que hei de encher teu copo. Hei de encher teu corpo.

Mas por enquanto o encanto me basta. E só.




Poesia Impropria
domingo, 10 de julho de 2011 às 21:12



Então foge.
Ignora minha poesia, cospe no que me plantou.
Do escarro também vem inspiração .



Abre a boca vadia, engole o que um dia amou.

O engasgo também se faz respiração.


Corre a rua vazia, reconhece que errou.

Do amor é que brota a maldição




A Maldicao
sexta, 1 de julho de 2011 às 20:25


Ah Poesia maldita que me emperra coisas e ecos na garganta!

Ah Poesia prostituta, que se vende por qualquer sorriso.

Poesia vadia, que me vende aos viciosos por paixoes vazias.

Poesia vagabunda que se faz a qualquer preco.

 
Poesia infeliz, que nem mais voce me toma pela mao.



Te dou o escarro do rancor de ter me roubado o sopro,

O desprezo do desamor por ter me sequestrado a inocencia,

O podre do ardor de onde me falta agora a alma.

Ah poesia maldita, prostituta, vadia. Vagabunda, infeliz.
Nunca mais teu nome em caixa alta.




Amores Antigos II
sexta, 29 de abril de 2011 às 11:09


Ama.


Tropeça na dor pela estrada, nos acostamentos.


Pisa na vida pelos caminhos.


Sorri sorriso vazios, de felicidade vazia.


Mas depois volta.


Enche teu copo com ilusões fugazes. Goza.


Vai, ama.

Mas depois volta.




Amores Antigos
sexta, 29 de abril de 2011 às 09:08


Vem, me toma o peito.


Me arranca a luz dos olhos, me lança ao espaço.


E some na multidão, me abandona, me lanha a carne.





Vai, some.


 
Eu ainda estarei por aqui


Peito vazio, olhos escuros, esperando teu retorno




Depois Do Mundo
sexta, 29 de abril de 2011


O que vem alem?


Ha de haver.


Ha de haver o alem,


O Alem-Mar, o acima do ar.


O que vem depois?


Ha de haver um depois.


Quando a mente cede, o coracao encanta e o corpo pede


Alem.


O que vem de mais?


Ha de haver um mais.


Quando a razao abandona os sentidos entorpecidos.


Ha de haver.


Ha de haver o alem


Ha de haver o depois


Ha de haver o mais.



Poeminha Curto De Pé Quebrado.
quarta, 30 de março de 2011


Voe pra cá!


Venha meu Poeta-Passarinho!Voe pra cá!


Voe pra mim!


Olhe, olhe só! Em meus braços fiz um ninho...


Entre em meu salão de espelhos


Farte-se com minhas memórias,


Entre e faça ventar aqueles antigos olhos


Apesar da carne,


Apesar da ciências do mundo,


Apesar do peso,


Eu posso amar.


Voe pra cá! Venha meu Poeta-Passarinho!
  
 
 
 
Peso
quarta, 2 de março de 2011 às 07:58


Não quero nada nem ninguém que me complete.


Não é que não seja necessário. Simplesmente não é possível.






Quero alguém para dividir esse tanto de tudo que sou eu.


E eu sou muito.






Quero dar pedaços de mim a quem quiser, mas é necessário suportar muito.


Pois eu sou muito.






Aqueles que aceitarem me conter em si, saibam que vão amar, e amar muito.


E amar tudo.


Pois eu sou tudo.

Saibam que sentirão, verão, ouvirão tudo de inimaginável.


Pois eu contenho tudo.

Saibam que terão a fome do mundo.

Viverão guerra.

Serão doentes, violentos, viciosos, vorazes.

Conterão tudo e não se contentarão com a vida.

A felicidade estará ainda mais distante, pois ela estará dentro.


E terão tanto de tudo dentro de si, que se perderão na insanidade de me conter.

Eu sou fúria. E sou sou tanta...

Inspirarão tempestades, cairão de amores por libélulas delicadas.



Desejarão ser poetas

Piratas

Pintores



Jamais terão paz, um segundo dela que seja.
Pois eu sou muito. Tudo. Sou tanto...


 Preciso de alguém para dividir esse tanto de tudo que sou eu.



E eu sou muito.


 
 




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Metades Reclamadas

“Só habita com intensidade aquele que soube encolher” Gaston Bachelard – A Poética do Espaço e Stéphane Dimocostas me sacudindo as fundações.


 
Pois eu acho que viver é expandir-se. Expandir-se até que sua vida torne-se tão densa, mas tão densa que o espaço a sua volta seja nada mais que vácuo.






Eu deixei de fazê-lo, há muito tempo atrás. Creio que desaprendi. Mas foi tudo muito lento e gradual, até que o irretrocessível (cria eu) havia sido atingido.


Deixei de expandir-me em um primeiro momento. Então deixei de absorver aquilo que não me parecia palatável. Então abandonei também o que me aprazia. E deixei a vida me passar, até que se tornasse sopro. Deixei a respiração ir, até que me restasse o suspiro. Deixei que o amor fosse, até que restasse a rua. Mas os espaços continuaram a transmutar-se em vácuo. Os não-espaços, os não lugares, o tudo que me cercava permaneceu seguindo, porém já não havia mais estímulo para que eu também fosse. Vi que o vazio estava ali porque o rio corre, o vento venta, e a vida é dragada para dentro ainda que inconsciente. Só que quando não catalogamos aquilo que entra, é tão fácil perder-se... tão mais fácil se esquecer em meio a tanto não digerido e solto que a vida é sobrevida, e a sobrevida já é uma quase morte. E uma quase morte não significa descanso.






Hoje voltei a ser, a viver, a antropofagizar vida.






Voltei a respirar e deixei os sussurros apenas para os momentos em que me falta o fôlego. Mas hoje sou metade de mim. Voltei a me dar às pessoas em uma outra metade de qualquer metade, tendendo ao infinito fracionado em uma proporcionalidade inversa a tudo que sou/fui.


Mas com isso tudo preciso contar que estou um pouco ansiosa. Acredito que haja perdão até para gente como eu. E nesses casos em que o crime cometido já é a pena a ser paga o perdão vem cheio complacência dos olhos piedosos daqueles que te estendem a mão dizendo em um silêncio ensurdecedoramente eloqüente “coitada, tão nova....”. Mas mesmo sendo a insatisfação o maior órgão do corpo humano, e a pele (que a sente) o segundo maior (pagando quieta – coitada – nossas atrocidades filosóficas), apresento-lhes minha defesa:






‎"porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio."


“porque metade de mim é amor, e a outra metade também.”










E pois, apesar do que grito e do silêncio em metades e apesar das frações e do longo período de desprezo pela vida e da alma esfacelada e do coração em necrose e do cérebro cartesiano pulsante em razão e fórmulas e filosofia, uma metade de mim também é amor, como vêem. Peço que toda minha loucura (ainda que injustificável) então seja perdoada!

A vida contemporânea é delineada por um espaço muito particular para o qual migram cada vez mais os sujeitos de nossa sociedade: o não-lugar, um espaço “inqualificável". Eu mesma, ignorando os conceitos de Marc Augé.


Percam-se

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Resposta à Resposta a Uma Ciumenta ou Considerações Sobre Nós

Olha, chame-me do que quiser, mas eu amo o fato de haver abismos nos separando do resto. O Destino (ao colocá-lo em caixa-alta me soou como Victor Von Doom rs), a providência divina ou do que queira chamar, se incumbirá de alargar os gargalos de gente-menor que não entende o vislumbrar daquilo que somos. Existem universos culturais diferentes e sinto informar-lhe, os pertencentes ao nosso são minoria e desaparecem em uma regressão geométrica (será que você testemunhou agora o nascimento do primeiro neologismo matemático?). Mas digo-lhe uma coisa, rebaixe-se até a soleira da insignificância intelectual de sua musa que a vida lhe parecerá mais camarada! Para nós, meu bom, tudo é mais difícil. Nós arcamos com os pormenores deste universo em concordata. Nós sorrimos mas somos menos felizes, nos relacionamos mas não nos envolvemos, nos deslumbramos e não amamos, ou amamos menos, ou amamos de forma analítica, mas tão analítica que o sentimento esvai-se em catalogações e dissecações, e por fim nos sustentamos com as lembranças do primeiro toque. Nós trepamos mais, raramente fazemos amor (ok, isso não é de todo ruim). Viver é mais fácil quando se tem um ou dois dígitos no Q.I. Mas não te condeno por pensar nela. Ela deve mesmo ser linda e carregar verdades e outros símbolos metafísicos em sua aura. Porém não se perca, nem feche os olhos para o que há a sua volta, o belo é perecível (ok, clichê, reconheço) e nunca exclusivo.







Falando em Beethoven... sabe que nunca tive paciência para ele, nem me atrevo a dizer que conheço algo. Mesmo para relaxar... acho que meu cérebro tem ojeriza a qualquer romantismo, mesmo o erudito (ok, essa foi a mentira mais deslavada já contada no hemisfério Sul). Mas ontem ouvia Liszt. Sou absolutamente apaixonada pela Valsa Mephisto. Alguma consideração? - Na verdade eu tenho uma: essa é uma excelente traquinagem para eu fazer com minha terapeuta terça... Analyze this! Hehe . Aliás, você, analise o seguinte: nós somos criadores, nós somos soberanos. Usas quase 10% da sua massa e é capaz de tudo o que fazes e mais, pois ainda há muito o que aprender. Me impressiona com o que escreves com esses mesmos quase 10%. Ainda se considera criatura? Então me junto a sua voz no coro ao mandar sua vaca, digo, musa evangélica ir pastar na puta que a pariu sob as bênçãos do Deus que ela preferir, enquanto nós nos fazemos Deuses em nossa amoralidade.






(Ok, now I’m out of control, please call the Police)






Confesso que fiquei curiosa e me detive durante alguns bons minutos em sua consideração final. Qualquer coisa imoral é normalmente divertida, havendo troca de fluidos corporais então? O que de ruim pode haver nisso?...






Beijos. Muitos. Todos devidamente imorais.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

DEAD MAN TELLS NO TALES.

Hoje pela manhã me lembrei dessa frase. Ela seria título de um dos filmes da série de Piratas do Caribe (que acabou por se tornar o Dead Man’s Chest), e recordo-me que da primeira vez que a ouvi pensei imediatamente que seria um belo título para uma futura crônica. Well, here we go.


Cheguei há poucos dias a mais um fim. E sim, mais um fim anunciado em seu começo. Porém vocês me conhecem... eu não resisto a uma boa briga rs. E esse foi, sem nenhuma dúvida ou hesitação, o relacionamento mais profundo, de maior troca e mais proveitoso que eu já tive. Pela primeira vez um homem se mostrou um desafio para mim. Não em qualquer teor ordinário, pois quando se trata de mulheres e relacionamentos, homens são sem exceção, todos iguais. E digo que, por amor à minha linda e macia pele de raposa (intacta mais uma vez), foi ótimo descobrir que esse caçador não representava uma nova espécie. Quando digo ‘desafio’, o digo na esfera intelectual. Nós nos levávamos à exaustão mental seguidas vezes, teorizávamos, discutíamos, refutávamos argumentos incríveis com outros ainda mais geniais. Eu estava absolutamente fascinada. Esse nível se manteve desde a nossa primeira conversa à última (que ocorreu há poucos minutos, diga-se de passagem). Éramos enormes e livres juntos. E esse foi o maior, senão o único, de nossos problemas. Éramos grandes demais juntos. Demais para convivermos. Pois o grande problema de ser grande é que quando o caos vem, ele é cruelmente proporcional. Alcançamos a loucura em dois intensos meses. E agora que o alívio do fim nos refrescou a alma, eu repenso aquele primeiro “eu te amo” por nós trocado. Não questiono a idoneidade de meu consorte, mas a minha própria diante de tal declaração comparada ao que sinto agora – que se aproxima de alguma ansiedade pela dor por vir, mas que eu sei que mais uma vez não virá. Se nem mesmo esse homem (o mais próximo de mim que já existiu) eu amei, quando o amor virá? Estou cansada. Quase cansada demais para tentar mais uma vez.


Ao final disso tudo, dentre todas as conclusões as quais eu cheguei, compartilho com vocês a seguinte: My heart is a dead man. And a dead man tells no tales.